redação civil

20091111

sutileza is all around


:)

- So what's the problem, Sammy-o? Is it just Mum or is it something else? Maybe... school - are you being bullied? Or is it something worse? Can you give me any clues at all?
- You really want to know?

- I really want to know.
- Even though you won't be able to do anything to help?

- Even if that's the case, yeah.

- OK. The truth is actually... I'm in love.

- Sorry?

- I know I should be thinking about Mum all the time, and I am. But the truth is I'm in love and I was before she died, and there's nothing I can do about it.

- Aren't you a bit young to be in love?

- No.

- Oh, OK, right. Well, I'm a little relieved.

- Why?
- Well, you know - I thought it might be something worse.

- [incredulous] Worse than the total agony of being in love?

- Oh. No, you're right. Yeah, total agony.


20091105

se eu fosse um sentimento


Dia desses me perguntaram: se um sentimento eu pudesse ser, qual seria o meu eleito?

Eu seria, sem sombra de dúvida, o arrebatamento: a alegria com sinos ao fundo que tira o ar por segundos; que, justamente pelo não-compromisso do amanhã, tem cara de futuro.

O arrebatamento é o melhor sentimento do mundo. É o que enraíza todas as relações de valor, toda emoção profunda.

20091022

oito anos dentro dos dezenove da mtv brasil


A MTV Brasil aniversariou. Teve homenagenzinhas e tal, até eu me prestei a twittar ao canal o nome do primeiro clipe que eu vi através da emissora: Metallica -
The Unforgiven. Lembrei da circunstância: foi na casa do André Diniz, meu primeiro namorado, que tinha parabólica, no tempo em que ter parabólica, meldels, era muito phoda. Isso foi há - nossa! - 17 anos atrás. Sim, eu sou precoce - para namorar e para a música. :P

Claro que a MTV salvou minha vida. Era o paraíso televisivo para quem outrora esperava ansiosa que o Fantástico passasse videoclipes! E sim, apreciei a faceta popzinha da MTV: tive meu romance com a emissora, como a época (lembro bem que entre 1996 e 1997) em que eu acompanhava o Disk com a Sabrina Parlatore, os enlatados de verão e coisas do tipo que me vêm fácil à memória. Foi assim, por exemplo, que eu lembro com gosto que conheci clipes como Stranger in Moscow do Michael Jackson, Hero of the Day do Metallica, o Acústico dos Titãs e outras coisas que ainda hoje me agradam muitíssimo. Mas, por exemplo, sempre lamentei o fato de não termos aqui no Brasil uma MTV2, uma "filial" da emissora estadunidense em que só passavam clipes, ininterruptamente. Ou o fato de que a MTV Latina (a que tivemos acesso no Brasil durante bons anos) trazia as estreias muito antes de a MTV Brasil fazê-lo.

Faz algum tempo - uns 5, 6 anos, eu acho - que eu me desinteressei pela MTV, a ponto de pegar nojo. Começou quando atrações como Sandy & Junior começaram a ter espaço, quando programas como o Lado B foram parar nos buracos da madrugada, o Riff foi esmagado entre a programação, o Piores Clipes passou a ter 1h de duração e um monte de despropósitos em vez de música. Na mesma medida, a qualidade dos VJs caiu assustadoramente e quiz shows e outras atrações alheias a música tomaram conta do "syllabus" da emissora, que, para mim, virou simplesmente TV sem M.

Sem mencionar, é claro, que eu tenho saudade daquela roupagem meio "subversiva" que se encontrava por lá: cromaqui, vinhetas malucas/subliminares, e tudo que bastava para nos entreter eram videoclipes e um VJ de pé, com a perna apoiada num banquinho que nunca aparecia.


Acho que a coisa começou a se perder quando a MTV se tornou um canal aberto e se massificou: pronto, falei. Precisou se tornar interessante a muitos que antes sequer se preocupavam em se interessar por ela. Precisou ser para todo mundo, quando nada deveria ser. Por uma outra perspectiva, entendo perfeitamente que, com o advento de mídias do naipe do YouTube, a emissora tenha tido, de fato, que se reinventar no sentido de atender musicalmente a um público que não mais espera passivamente por música. Entretanto, não considero ter sido uma reinvenção feliz: tenho a MTV hoje como um canal voltado ao público adolescente, com foco em variedades que são variadas demais para o meu gosto.

(ou talvez seja simplesmente eu ficando velha com a síndrome de bommesmoeranomeutempo, mas acho menos provável, até porque nunca foi grandescoisa.)

A MTV me manteve, por um tempo, em contato constante com videoclipes e alimentou minha paixão por correr atrás deles, mas tenho uma certa mágoa da emissora: não foi a MTV que me entregou ao Pink Floyd, nem aos Rolling Stones, nem ao Queen, nem ao MJ, nem ao U2, nem ao Cazuza, nem à Janis Joplin. Não sei se foi uma questão de eu estar adiantada, ou eles atrasados, hahaha, mas hoje, creio que o canal me seja muito mais uma remitência à minha adolescência do que uma referência propriamente. De qualquer forma, assim como Herbert Richers contribuiu em algum aspecto para minha formação cinecultural, há alguma participação da MTV para com quem eu sou musicalmente. Então, ficam meus parabéns - assim, de longe.

20091006

de comédias românticas e amores bem-sucedidos


Dia desses eu caí num canal em que estava começando Prime (Ben Younger, 2005). Eu ando meio de saco cheio de "enlatados", além de que costumo reservar esse tipo de filme para ver com as lulus, mas enfim, de bobeira no sofá, resolvi assistir.

E eu nunca me inspiro para escrever sobre filmes do gênero de
Prime. Por algum viés, o filme me tocou e daí a exceção.

Resumir filmes não está entre meus talentos, mas vamos lá: é a história de uma mulher de 37 anos, recém divorciada, que se envolve num romance com um rapaz 14 anos mais novo que acontece de ser o filho da sua terapeuta. A princípio, não ciente do laço de parentesco, a terapeuta fervorosamente encoraja o romance; mas, quando sabe se tratar de seu filho, surta em face de "a pimenta não estar nos olhos dos outros" e se vê inapta a seguir tratando de sua paciente, por conta de questões naturalmente pessoais e também éticas.

(eu avisei que eu não sei resumir.)

O filme tem toda uma cara de comédia romântica. E é. Mas o diretor/roteirista parece ter querido que o filme também fosse um drama. E conseguiu. Meryl Streep está fantástica, Uma Thurman convence muito bem. A comédia se dá de forma leve, mas natural, sem palhaçada; o drama se dá de forma tangível, externado na hora certa e comedido quando é devido. E, assim, o filme se desenrola entre momentos como o desconforto da terapeuta ao ouvir relatos sobre seu filho, a alegria de viver da paciente, a relação mãe-filho-família, o abismo da diferença de idade do casal e, claro, seu romance ao mesmo tempo complicado e irresistível que, apesar de contar com um ator fraco, transmitiu o que precisava.

No momento em que a terapeuta resolve revelar a verdade à paciente, eu achei que o roteiro fosse se perder. Não vou contar o que acontece - até porque não há nada de especial -, mas eu devo dizer: tive medo que o casal fosse viver feliz para sempre. Tudo bem que viver felizes para sempre é o final esperado numa comédia romântica mas, no caso de um roteirista que se dispôs a desvelar o lado "dramático" e - por que não dizer? - realista da coisa, não procederia.

Mas o final procedeu. Sem falas e com trilha sonora que comunica. Leve, acolhedor, convergente, de bom gosto. E eu me peguei pensando que o "tabu" da diferença de idade do casal era apenas uma desculpa para justificar o fato de eles não ficarem juntos. Poderia ser qualquer motivo, ou nenhum, ou todos. O fato é que o rumo que a trama tomou me tocou, e eu poderia me estender por parágrafos tentando explicar aqui por que eu acho que é importante saber se desfazer, e por que eu acho que uma relação não precisa durar para sempre para ser considerada bem-sucedida.

O casal não vive feliz para sempre. Ou melhor, vive. Com a marca e a alegria de um amor bonito, verdadeiro, acrescentador, eterno - dentro do seu devido tempo.

20091001

torch


as horas no pulso direito

as alpargatas, mesmo na rua, e mesmo comigo
a milonga cantada "com sentimento"
as fotos dos cães no celular
a minha cintura se sentir no lugar devido
e o desinteresse mútuo
e esse jeito de avisar quando já está no prédio
sem dar a mínima para o meu sono
ou minha cara lavada
ou minha roupa
ou meus nãos
o medo
a diferença gigante

pouco tempo
a intimidade meio esquerda
e a fumaça do cigarro
e o abraço preciso
o não saber o que quer
o não saber o que quero
tu somes
eu sinto
tu voltas
eu minto
tu finges
eu fujo
depois escrevo
e apago o número
e sinto falta da mão no meu joelho
e do trejeito...
ahh, deus!, esse trejeito de jogar o cigarro para o canto da boca antes de acender...

20090629

que seria de mim


sem o humor de Allen?
sem os noturnos de Chopin?

sem as artes de Walkíria?
sem os homens de Crowe?

sem a prosa de Azevedo?
sem a política de Raja?

sem as realidades de Kubrick?
sem os dons do Machadão?
sem os rituais de Helena?
sem as leis de Asimov?
sem a mão de Maninha?
sem os versos de Whitman?
sem as lições de Medina?
sem os vermelhos de Shyamalan?

Eu seria somente Lencia, sem Sacramento.

20090623

maior e melhor


São 7h30min da manhã e essa chuva me faz lembrar daqueles dias assim em que eu pedia (implorava, a mulher era linha dura) à mãe para ficar em casa dormindo. Lembrei da infância e adolescência. Docinhos os dias em que minha forra estava nas mãos da helenamaria somente, e minha preocupação se limitava às pesquisas e redações.


Fiquei computando o tempo. Há 10 anos atrás ficar em casa dormindo já não era mais possível. Eu havia começado a trabalhar um ano antes. Não é à toa a má memória que tem me acometido nos últimos anos, nem as manias, nem as cafonices nem a crescente intolerância. Estou ficando velha, de fato.

No Ensino Médio, numa certa aula de Psicologia, fomos questionados sobre qual fase da vida seria a mais difícil na nossa opinião, ao que 95% da turma se dividiu entre "a adolescência, é claro" e "a velhice, é claro"; no primeiro caso, razões como ter de viver sob os olhos dos pais, ser incompreendido, ter de ser aprovado dominavam as justificativas; no segundo, incapacidade física e muitas vezes mental, ter de assistir à morte de várias pessoas amadas, etc. tornaria a terceira idade a fase mais difícil de se viver.

Lembro de oscilar entre as duas maiorias, mas fiquei elucubrando perante a rebatida da professora Simone: para ela, a fase adulta era a mais difícil, defendendo a premissa de que uma vez sendo um adulto, nada é justificável. E, curta e grossa, deixou seu argumento no ar, para que pensássemos. Pois uma simples frase tornou a Simone inesquecível para mim: a assertiva dela chicoteia meu lombo quase todos os dias.

Porque ela tem razão. É só o adulto que nunca tem desculpa. Não é jovem-não-ciente, não é velho-esclerosado. Se trabalha, "negligencia a família". Se não trabalha, "é vagabundo". Se casa, "é conformado", se não, "é um perdido". Adultos não têm caixa preferencial, não têm meia-entrada, não têm isenção de nada. Não é algo terrível, mas há que se estar preparado, pois assim o é e às vezes é injusto sim. Pode muitas vezes passar despercebido, mas tem dias em que essa realidade vai bater na sua cara.

Foi-se o tempo em que eu tinha melhor-amiga, carteirinha de piscina, caderno de Física. Hoje eu tenho condomínio pra pagar, um contador e um domínio na internet. Há 11 anos atrás eu desenhava, estava sempre apaixonada e não me preocupava com meu peso. Hoje eu sou política, empilho seriados e jornais e revistas para ler e tenho um chefe para aturar.

Mas há o que compense: tenho de engolir o choro na maioria das vezes, porém me afeto bem menos do que anos atrás pelas pequenisses alheias. Me interesso por bem menos pessoas do que me interessaria há alguns anos, mas meus relacionamentos são infinitamente mais bonitos e acrescentadores. O lado mais difícil de ser adulto é que uma escolha, um passo, uma decisão implicam em várias consequências que fatalmente terão de ser enfrentadas. O lado belo é justamente é o poder na sua mão. Ser adulto é poder escolher.

20090504

run, lencia, run,


but don't forget to look around.

Pursue that which you trust,
do not belittle your love,
delight in human warmth,
hold hands,
savor the best in others.
Enjoy the moment,
sing to freedom,
be willing to learn,
be willing to change,
be willing to never be sure...
and welcome-kiss what is to come.

20090428

in the heart


Começou agora
Hearts in Atlantis - Scott Hicks, 2001 -, filme que acorda em mim as palavras belo, formidável, singelo. Já vi várias vezes.

O filme é majoritariamente baseado na novella "Low Men in Yellow Coats" de Stephen King. A estória é a primeira de uma coleção intitulada como o filme e é, em tempo, mais uma obra-prima do autor em prosa que conseguiu ser transposta ao cinema com a devida sensibilidade. É bonito de uma forma simples - ou simples de uma forma bonita -, o cenário com cara de quase-outono alegra os olhos, Anthony Hopkins está como sempre - atuando magnificamente e com a voz mais acolhedora e envolvente da galáxia - e os laços e a fotografia possuem uma relação estreita.

Mas então, hoje, em pequeno recorte, prestei uma atenção não-óbvia à afetuosa relação entre Bobby Garfield e Carol Gerber:


Uma pessoa pode nem sequer ser guardada de lembrança numa foto. Ou pode ser guardada num álbum. Numa caixa. Numa moldura. Na parede. Na cabeceira da cama. Na carteira. Na gaveta. Na retina. No meio de um livro.

Mas eu quero ser como Gerber baby: ser guardada na biblioteca. Temo não haver forma mais bonita de ganhar amor através da memória.

20090426

chá das cinco



Café com Pecado

250ml de café (eu gosto forte, mas que seja conforme o gosto do freguês);

1 bola de sorvete de chocolate, creme, baunilha ou aquele carioca da Kibon (não aconselho sorvete que tenha flocos, pois os flocos amolecem e parecem "nata" no meio do café);

leite condensado (se você gosta bem doce, sugiro duas colheres de sopa).



dica do chef: meia luz e um filme europeu na tv realçam o sabor do café. ;)

20090402

lacuna inc.


Dia desses pedi que minha cleaning lady trouxesse abaixo caixas que empoeiram o topo inalcançável da minha estante. Gadgets antigos, contas velhas e my memory boxes. Muito das minhas lembranças provém de laços que eu construí ao longo da minha vida escolar, seja no colégio ou não. Creio que seja mais ou menos assim para todo mundo.


Estava pensando que embora minha educação tenha sido excelente no primeiro grau, não tenho grandes histórias de amigos nem muitos "escritos". Eu era meio nerd, ganhava concursos de redação, estudava inglês por minha conta, gostava de rock e música clássica e sempre fui meio metida a argumentar. Além de que eu estudei em escola particular e acho que eu era a menos abastada por ali. Eu tinha as amigas da escola - Paula, Renata, Marluce, Luana - e as da vizinhança - Michele e Jozélia. Somente as da vizinhança permanecem. Mas não tenho trauma nenhum da escola. Não fui bullied, não fui excluída nem discriminada. Apenas não fiz grandes amigos e nem fui popular.

Teve o ano em que a mãe resolveu me tirar de uma escola particular laica para me colocar numa escola particular religiosa. Aquele ano foi quando comecei a ir e voltar sozinha (=sem a mãe) para casa. Como eu sempre estudei no centro, era ótimo. Também foi nessa escola que eu conheci duas pessoas com quem ainda possuo um certo contato, a Carolina e o André, dois companheiros de quem lembro sempre com muito carinho. Mas acabei ficando somente um ano naquela escola, porque eu resolvi parar de assistir às aulas de religião do Irmão Marcelo (um sujeito jovem e simpático, acho que do Seminário), até o dia em que a diretora me pegou matando aula e fomos conversar no gabinete dela. Eu argumentei tanto, educadamente (sempre detestei falta de educação) sobre por que eu tinha que estudar uma linha de pensamento somente que ela ficou furiosa e chamou minha mãe. Minha mãe decidiu então que eu sempre estudaria em instituições laicas. :P

Uma coisa, aliás, que eu sempre admirei na Helenamaria foi o ímpeto que ela teve pra que eu sempre convivesse com pessoas de lugares, etnias, realidades, tribos e estilos de vida diferentes. Até hoje minha vida social é assim e eu acho que ganho mais com isso :), embora às vezes eu não consiga juntar todos os amigos. Faz parte.

No segundo grau eu fui fazer Magistério no Assis Brasil e foi lá que conheci pessoas que se tornaram grandes amigas e outras que, mesmo sem ter solidificado uma amizade, carrego sempre no coração. E é dessa época que há de fato mais "registros escritos". Foi lá que eu conheci a Francine, foi nessa época que minha amizade com a Michele (minha amiga de infância) se fortaleceu e também nessa época eu conheci a Lígia. As três grandes amigas até hoje.

É claro que naquela época (mid-90s) se tinha muito mais tempo para registrar sentimentos. Fora que tudo era mais "dramático". Tudo era motivo para escrever, chorar e poetizar. Não se conhecia a palavra brando. hehehe.

Sentei no tapete da sala e abri uma das caixas. Um monte de cartas da Jaqueline, da Francine, da Renata, da Lígia, da Michele. Como nós tínhamos assunto! E é legal ver a nossa evolução ao longo dos anos: física, mental, psicológica, literária. E é legal pensar que eu adoro e me dou com todas até hoje. :)

Tem cartas de uma colega que eu acreditava piamente que não gostava de mim e chamava ela de cínica. Em meio a cartas escritas por ela durante alguma aula ou em casa, um cartão postal que ela me mandou de Garopaba numas férias de verão. Fiquei pensando se uma pessoa tão cínica, aproveitando as férias de verão em outro estado, se lembraria de escrever um postal a alguém de quem não gostasse. Fiquei chateada comigo mesma por um instante: adolescente boba, imatura, paranóica. Mas em seguida me perdoei - se for para ser boba, paranóica e imatura, que seja então na adolescência. Ainda bem que eu deixei essas bobagens lá, no paralelo dos meus 15 anos.

Tem muitos cartões, muitos! Aniversário, Natal, outras datas e até aleatórios, de pessoas que marcaram e de outras de quem eu nem lembrava. Fiquei com saudade da função de mandar e receber cartões. Hoje mando e recebo muito pouco (de papel).

Fora os cartões que acompanham flores. Engraçado é que eu lembro de praticamente todas as flores que acompanharam o cartãozinho que ficou de prova. E não são poucos.

Desfiz as "caixas dos namorados" e misturei as palavras deles às outras. Os homens da minha vida ainda são os melhores, mas percebi que certos saudosismos não fazem mais sentido para mim.

E os meus pais! Uma coisa muito legal dos meus pais é que eles também sempre tiveram o hábito de escrever a mim - cartões, bilhetes, cartas. Tem cartões e bilhetes que minha mãe me escreveu antes mesmo de eu saber ler. Achei tão bonito. :)

Lência,
a simplicidade de tua vida é uma verdadeira lição de amor que tens a nos ensinar. Obrigada!
Da Mãe
12 de outubro de 1984

(eu tinha 2 aninhos :~)

E, mexendo em tantas cartas e cartões, pensei que ainda haveria os escritos que devolvi ao remetente. E que, não sei se por ter devolvido ou se por outro motivo, aos poucos, as lembranças já não me são tão claras...

Uma amiga uma vez me disse que um dia ainda iria colocar tudo fora. Fiquei pensando nisso e me senti ambivalente. Resisto a reler algumas coisas, algumas já nem fazem mais sentido, mas também não consigo colocar fora e nem sei se um dia conseguirei.

Há coisas que não estou preparada para lembrar, tampouco para esquecer.

20090308

poesia numa hora dessas?! e meia-noite e um quarto


Fui deitar. Mas deitei e fiquei pensando numa música do Richard Marx. O caminho mais fácil era dar um pulinho da cama até o office, plugar o iPod e baixar.


Enquanto isso, apreciava minha biblioteca quando simplesmente peguei um livro deixando capa, título e autor para a sorte. Era Poesia numa hora dessas?! de Luís Fernando Veríssimo. Mais apropriado, impossível.

Abri, sem planejar, na página 23:

O corpo e a mente
têm biografias separadas,
cada um sua memória própria,
seu próprio jogo de charadas.
Meu corpo tem lembranças
- cheiros, tiques, andanças -
que a mente não registrou
e o corpo não tem as marcas
De metade do que a mente passou.
(Pior que uma mente insana
num corpo sem muito assunto
é um corpo que já foi ao Nirvana
sem que a mente tenha ido junto.)
Cada um tem o passado
do qual o outro não tem pista
(como um bilhete amassado)
e nem o Mahabharata
explica uma mente anarquista
num corpo socialdemocrata.
Compartilham bioplasmas
e o gosto por certas atrizes,
mas não têm os mesmos fantasmas
nem as mesmas cicatrizes.
Das duas, uma, gente:
ou toda mente é de outro corpo;
- ou todo corpo mente.

Gostei da brincadeira e, de novo, "sorteei":
Meia-noite e um Quarto, Martha Medeiros (sorte essa ligeiramente bairrista, não?).

Página 46.


se eu quisesse
sairia da cidade
moraria onde pudesse
deixaria saudade
partiria quando desse
não interessa a idade

andaria a esmo
descobriria ruas
iria sozinha
pediria abrigo
trabalharia à noite
viveria de dia
ouviria música
saberia línguas
pediria arrego
trocaria o nome
mandaria cartas
choraria à vezes
não envelheceria
perderia o rumo
cometeria erros
distríbuira beijos
arruinaria casamentos
visitaria museus
deixaria o cabelo crescer
sorriria diferente
montaria uma casa
viajaria em cargueiro

faria tudo isso
se eu quisesse mesmo

Agora é cama ouvindo Richard Marx. Dar mais comida pras sinapses.

20090307

aham. já li. é, é... muito massa aquela parte, é, é...


Que as pessoas fingem ter lido isso ou aquilo é sabido. Mas
aqui os dados se aproximam mais da exatidão, hehe.

Livros que as pessoas fingem ter lido:
1. 1984, de George Orwell (42%)
2. Guerra e Paz, de Leon Tolstoi (31%)
3. Ulisses, de James Joyce (25%)
4. Bíblia (24%)
5. Madame Bovary, de Gustave Flaubert (16%)
6. Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking (15%)
7. Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie (14%)
8. Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust (9%)
9. A Origem dos Meus Sonhos, Barack Obama (6%)
10. O Gene Egoísta, de Richard Dawking (6%)

Autores que as pessoas realmente leem:
1. J K Rowling (61%)
2. John Grisham (32%)
3. Sophie Kinsella (22%)
4. Jilly Cooper (20%)
5. Mills & Boon (18%)
6. Dick Francis (17%)
7. Robert Harris (16%)
8. Jeffrey Archer (15%)
9. Frederick Forsyth (13%)
10. James Herbert (12%)

Eu já li 1984 e Uma Breve História do Tempo e os recomendo fervorosamente. Comecei a ler a Bíblia ano passado, mas não leio desde o início do ano.

Não leio, on a regular basis, nenhum dos, supostamente, autores realmente lidos. oÔ

Na adolescência eu uma vez fingi ter lido Dom Casmurro do Machadão, mas depois da mentira fui correndo ler pro caso de me fazerem mais perguntas e eu não fazer feio. Até nas mentiras eu sou nerd.

20090224

dublagem e profissionalismo


Eu não gosto de dublagem. Mas, sendo eu nascida na década de 80, devo admiti-la como parte da minha formação cine-cultural, e o Brasil tem sido reconhecidamente um exportador de dublagem de qualidade. Essa bobagem de colocar atores/humoristas globais para dublar filmes é moda dos dias de hoje, que, em tempo, espero ser beeeem passageira. O que tirou Bussunda e Juliana Paes das propagandas de cerveja e os levou à dublagem de animações me permanece um enigma da humanidade.


Dublar é um exercício que certamente exige muito talento, desenvoltura, alta capacidade interpretativa e transpositiva. O mercado brasileiro de dublagem é tão bom que, por conta da política de criação de dubladores oficiais para atores e personagens, criaram-se verdadeiras identidades ao longo dos anos. Ora, quem da minha geração com um ouvido atento que seja não reconhece a voz do dublador do Seu Madruga, do Jack Nicholson, do Scooby-Doo, da Sandra Bullock, entre tantos outros? Danton Mello, para mim, não é irmão do Selton nem o Héricles da Malhação, e sim o dublador do Ralph Macchio na trilogia de Karate Kid. Apesar de preferir o idioma original, seja este conhecido meu ou não, verdade seja dita: em termos de dublagem, vendemos versão brasileira com estrelinha.

Mas então me vem um dublador oficial e me racha a cara com essa: dublador de Sean Penn se recusa a dar voz a papel do ator no filme Milk.

Penn, como Harvey Milk, ativista homossexual

É em momentos assim que eu penso que com certas pessoas não há como discutir. Tão logo, Sean Penn terá voz nova. Será que alguém do Casseta topa a parada? ¬¬

20090211

barra da saia


(the only thing you can depend on is your family...)

Enquanto tomava um banho despreocupado e ecologicamente incorreto, eu pensava que, há 1 ano, 6 meses e 14 dias, eu não tenho sido uma filha pródiga. Bati asas e voei alto, alto, raramente vindo à casa dos meus pais. Mas um infortúnio como a falta d'água no meu condomínio acabou me trazendo de novo ao aconchego daqui. E ainda por cima vou dormir na casa dos pais com barulhinho de chuva. :]

Estranho que estou escrevendo no meu quarto, que se transformou num escritório com monitor widescreen, um processador porradinha e uma internet quase nerd, artefatos há dois anos desconhecidos pelas mãos de meu pai e, principalmente, de minha mãe. Entretanto, atualmente tenho a impressão de que próxima vez vou me deparar com um dos dois navegando no Firefox. Já é engraçado ligar essa bodega e me deparar com três usuários: José Paulo (protegido por senha), Helena (protegido por senha) e Convidado. Vejam só, hoje sou convidada. :P

Identidade é uma coisa ambivalente. Tento lembrar dos meus anos de faculdade que passei nesta mesma peça e não consigo lembrar de muita coisa. Ou as madrugadas aprendendo HTML. Ou os 4 anos com o Duda. Ou os passos da vó. Pouca sinapse para 25 anos. A mãe diz que aqui é minha casa e eu penso "não, não é." Minha casa é o apartamento compacto e under construction cheio de TOC, com catálogos, decoração P&B e o desejo de um Lhasa Apso. Volto aqui e vejo que, apesar do quarto-que-virou-studio, muito se mantém o mesmo. Minha mãe me alerta: "tem bolacha salgada na 2ª gaveta e doce na 3ª", "fecha a janela da sala antes de deitar", "este ventilador tá trocado, ventilador é pra cima e exaustor é pra baixo". Eu ouço e fico rindo sozinha pensando "não diga! :P" e só concordo, mas já desprovida daquela irritação de quem morava aqui. Coisas que se vão nesse não-dia-a-dia de cada um ter o seu canto. Penso em como a gente se irrita por pouco e aceno com a cabeça como quem está de acordo com as "orientações", quando na verdade estou em meio a meus pensamentos, concordando com o que sempre ouvi de minha mãe, que a distância evidencia o respeito. Esta casa é um porto, para onde sei que posso correr na hora de apertos como esse, mas não é mais meu lar. Eis uma constatação boa e acrescentadora. Ter minha casa é sem dúvida o que de melhor me aconteceu até hoje. É o que fortalece minhas raízes no coletivo de minha família mas também minha identidade como indivíduo, e enriquece minhas relações com quem eu mais amo - meus pais.


It’s a funny thing about comin’ home. Looks the same, smells the same, feels the same.
You’ll realize what’s changed is you.

(de The Curious Case of Benjamin Button, dirigido por David Fincher, 2008 e baseado na short story de F. Scott Fitzgerald, 1921).

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