redação civil


odiame por piedad yo te lo pido
odiame sin medidas ni clemencias
odio quiero mas que indiferencias
porque el rencor, hiere menos que el olvido

si tu me odias
quedaré yo convencida
que me amastes amor
con insistencia
pero ten presente
de acuerdo a la experiencia
que tan sólo se odia lo querido

qué vale más? yo niña, tu orgulloso
o vale más tu débil hermosura
piensa que en el fondo de la fosa
llevaremos la misma vestidura

si tu me odias
quedaré yo convencida
que me amaste amor
con insistencia
pero ten presente
de acuerdo a la experiencia
que tan sólo se odia lo querido




Não é todos os dias que eu tenho a queridíssima atenção de um ex-colega de trabalho, com quem é possível curtir festa e desenvolver papos legais sem segundas intenções de nenhuma parte. Não é todos os dias que penso que vou ficar enfurnada em casa e acabo sentada no Laranjal vendo o amanhecer. Não é todos os dias que consigo enxergar tão longe. Não é todos os dias que consigo ficar sem comer bobagens. Não é todos os dias que reencontro um amigo super companheiro para conversas, desabafos e cervejas. Não é todos os dias que conheço um austríaco super gente boa a quem posso ensinar(not) samba. Não é todos os dias que fico triste por causa de algumas pessoas mas acabo conseguindo deixar pra lá, porque enfim, sabe como é, tudo se ajeita. Não é todos os dias que consigo comungar com amigos antigos. Não é todos os dias que meu telefone não para de tocar. Não é todos os dias que leio livros atirada no sofá com meu cão dormindo nos meus pés. Não é todos os dias que tenho o prazer de ver duas pessoas que têm tudo a ver namorarem bem felizes. Não é todos os dias que consigo ver tantos filmes excelentes que deveria ter visto há longa data. Não é todos os dias que consigo fazer vários programas na companhia da minha mãe. Não é todos os dias que sou apresentada a alguém que tem músicas do Mark Knopfler no smartphone e me aconselha a não ir só a Tokyo, mas também a Okinawa.
Não é todos os dias. Então, valeu.


Acabo de assistir a Whatever Works, de Woody Allen.

(recordo que num certo dia eu conversava com um amigo sobre o sentido menos conhecido da palavra cínico/cynical, tentando explicá-lo; me ocorreu, várias vezes durante o filme, que eu deveria tê-lo recomendado um filme do Woody como forma estilosa de ilustrar.)

E não sei resumir plots. Whatever Works traz Boris Yellnikoff, um excêntrico e genial físico hipocondríaco, rabugento, obsessivo, fracassado que sai disparando suas ideias sobre política, amor, religião, a raça humana e sua existência a quem queira - ou não - ouvir.

Como dizer? Eu adoro Woody Allen. Ele adora fazer o mesmo filme de formas diferentes. Em Whatever Works, todos os seus elementos estão lá: New York City como cenário, os deboches à sociedade, as piranhices sexuais, o cinismo, as improváveis relações de amizade, a metalinguagem e, claro, o próprio Woody Allen - mais do que nunca, ligando o foda-se.

(sem deixar de mencionar que Larry David está excelente encarnando a persona de Allen)

O diretor tem, há anos, falado daquilo que pensamos, ou esbravejamos, ou dramatizamos, de forma sempre e cada vez mais afiada. Assim sendo, Whatever Works não traz grandes novidades e não chega a ter a potência de Match Point ou Vicky Cristina Barcelona. E, ainda assim, é divertidíssimo e inteligente.


(baseado em conversa com uma amiga que me disse: "tu não tá nem lá nem cá, não sei te categorizar".)

Bem, nem eu...

Sou ortodoxa para algumas coisas e heterodoxa para uma dúzia de outras. All Star bom para mim é All Star bem limpinho. Combino rosa com verde, vermelho com roxo. Prefiro praia em dias frios, casamentos em dia de semana, vinho em vez de flores, livros em vez de chocolate.

Dentre minhas maiores alegrias na vida: ter minha casa, falar francês, caminhar com meu próprio cão. Ainda falta ver neve cair, apreciar um tango na Argentina, gravar uma música, conhecer a Europa, andar a cavalo.

Sou vaidosa e sou dada a várias futilidades, contanto que eu não tenha que torná-las assunto. Eu adorar sapatos, esmaltes, tons de tinta de cabelo etc. e adorar falar sobre isso são coisas diferentes.

Adoro o tempo e sua passagem. Até hoje, tanto pessoal quanto fisicamente, só tem me feito bem.

Gosto de viajar. E de caminhar livre pelas ruas das cidades ao invés de passar o tempo todo encerrada em lojas, points, "atrações". Gosto de andar embevecida pela arquitetura dos prédios, pela história que a cidade me conta. E lugares que tenham árvores! Eu sou perdidamente apaixonada por árvores.

Adoro objetos com história. Qualquer objeto, desde uma relíquia até guardanapos de papel.

Faço coleções. Coleciono lápis, coasters roubados de botecos, tickets de cinema, vinis.

Gosto de visitar igrejas. Tenho pânico de não possuir o controle sobre as coisas, mas me conforta a opressão de uma igreja - quanto maior, menor e melhor me sinto.

Já aprendi que há pessoas somente chatas, mas que também há pessoas chatas adoráveis. Grata diferença. ;)

Em certa ocasião, eu estava em um museu de arte contemporânea com um amigo, que percebeu e comentou que, perante todas as obras que me impactavam, eu colocava a mão sobre a região do estômago e ali a deixava enquanto fosse necessário ficar contemplando.

Choro. E como choro. Cinema, ensaios de Thoreau, noturnos de Chopin, performance de ballet clássico no Guarany. As árvores balançando na janela da minha sala, um senhor empurrando uma carrocinha na rua, pores-do-sol que avermelham o fim de tarde. Meus olhos vivem marejados.

(mas eu sempre vou negar, dizendo que é "coceira no olho".)

E se eu tivesse que eleger um horário para mim, meus dias seriam eternos fins de tarde.

Acho ridículo esses exageros com o passado. Ou as pessoas o exaltam ou o ojerizam. Meu passado é bonito, válido, acrescentador. Tudo e todos têm seu valor. Pratico o meu luto no seu devido tempo e depois sigo em frente. Escolho muito bem e entendo que tudo tem começo-meio-fim. Lido com isso com naturalidade.

Gosto de privacidade, dou a impressão errada por sorrir e falar bastante. Odeio a forma como minha voz se projeta, sonora, poderosa e, muitas vezes, agressiva. Queria ter uma voz low-profile, então acho que inconscientemente acabo compensando no meu comportamento. Entre os "meus", sou informal e muitas vezes até efusiva. Entre quem não conheço, evito pessoas invasivas, que me tratem e toquem como se tivéssemos intimidade. Sou avessa à chamada "calorosidade brasileira": não sou uma metralhadora de perguntas e respostas, não saio distribuindo beijos e toques ao invés de cumprimentos. Minha mãe me acha antipática.

Eu adoro tentar entender e refletir sobre mim mesma e sobre as pessoas. Mas travo quando tenho que conversar sobre mim e como me sinto. T r a v o.

Adoro quem sorri só com os lábios. Se sorrir com os lábios e os olhos, ganhará meu coração. Não gosto de homem "atirado", aquele que se torna bobo. E não tenho paciência para "trovas" no msn. Gosto de me sentir à vontade para lançar um olhar, um convite, um comentário, mas tenho um lado machista bem desenvolvido - gosto de ser convidada, procurada, ser alvo de carinho.

Dois acessórios que praticamente fazem parte do meu corpo: iPod e óculos de sol. Ademais das vantagens conhecidas pelo senso comum, são eles que me protegem das pessoas.

Adoro ganhar livros de qualquer tipo, mas acho mais bonito se for usado. Se pertencia à pessoa que me deu, então, acho lindo. Há quem me ache estranha por isso.

Normalmente me encontro num limbo entre o underground e o mainstream. E, quase sempre, sei ser feliz assim.


2009 iniciou.

Viajei. Morei 1 mês com os meus pais. Descobri o que eu quero e o que eu não quero. Fui assaltada à mão armada. Tomei porres homéricos. Parei de beber. Voltei a estudar francês. Ganhei um cão. Parei de vilanizar as pessoas. Parei de dramatizar. Parei de tolerar certas "intensidades" de outrem que já não mais cabem. Comecei a meditar. Me apaixonei pelo idioma espanhol. Abandonei um emprego em que eu me sentia apagada. Voltei a escrever, a teorizar, a criar. Voltei a olhar para os lados. Solidifiquei novas amizades. Autentiquei antigas. Comecei a estudar Física Quântica com mais afinco. Reinventei um relacionamento. E me desapeguei. Tive uma grande ressaca moral, mas que me ensinou. Me apaixonei por cozinhar e descobri os dons gastronômicos de meu pai em mim. Tirei o aparelho ortodôntico. Tive ótimas surpresas, visitas inesperadas, ligações na madrugada. AprendiTentei aprender a tocar uma música no violão. Conheci novas pessoas, e também pessoas já conhecidas. Me apaixonei. Abri a minha casa a alguém novamente. Conheci milongas e música folclórica argentina. Me afastei do que já não fazia mais sentido. Percebi que não poderia ter tomado decisão mais acertada do que aquela de pouco mais de dois anos atrás. Descobri o prazer do eu antes do tu, do ele, do nós, do eles. And it felt better than anything else. Encontrei paz sem ninguém, sem dinheiro, sem prateleira de auto-ajuda. Entendi que os amigos não são tudo, mas constituem uma camada básica. Aprendi a alegria de cozinhar para as pessoas. Nunca li tanto. Senti como nunca a alegria do que é simples. Passei a ver uma série de coisas com óculos diferentes. Nunca fui tão social e, ao mesmo tempo, tão reservada. Nunca pequenas coisas me foram tão grandiosas. Nunca comi tanto sashimi. Nunca bebi tanto. Re-experimentei e parei de não-gostar de uma série de comidas. Voltei a ser loira. Não houve lugar no mundo melhor do que a minha casa. Entendi o poder do timing e das referências. Aprendi a andar sozinha em Porto Alegre. Aprendi jardinagem. Aprendi a dizer não, e, sobretudo, a dizer sim. Passei por bons e maus momentos, e de todos eles, tentei devotamente extrair todo o sumo que pudesse me acrescentar.

Em 2009 eu cheguei a tudo o que desejei: coisas, pessoas, aprendizados, sentimentos, decisões e, especialmente, o início de uma fase pós-guerra, numa dança harmoniosa em que certas coisas se assentam e outras se movimentam, tudo em prol dos acontecimentos.

E que 2010 aconteça.


I remember one morning getting up at dawn, there was such a sense of possibility. You know, that feeling? And I remember thinking to myself: So, this is the beginning of happiness. This is where it starts. And of course there will always be more. It never occurred to me it wasn't the beginning. It was happiness. It was the moment. Right then.



De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada
são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira
E se antes, um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa... da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro...
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem.

O Teatro Mágico


:)

- So what's the problem, Sammy-o? Is it just Mum or is it something else? Maybe... school - are you being bullied? Or is it something worse? Can you give me any clues at all?
- You really want to know?

- I really want to know.
- Even though you won't be able to do anything to help?

- Even if that's the case, yeah.

- OK. The truth is actually... I'm in love.

- Sorry?

- I know I should be thinking about Mum all the time, and I am. But the truth is I'm in love and I was before she died, and there's nothing I can do about it.

- Aren't you a bit young to be in love?

- No.

- Oh, OK, right. Well, I'm a little relieved.

- Why?
- Well, you know - I thought it might be something worse.

- [incredulous] Worse than the total agony of being in love?

- Oh. No, you're right. Yeah, total agony.



Dia desses me perguntaram: se um sentimento eu pudesse ser, qual seria o meu eleito?

Eu seria, sem sombra de dúvida, o arrebatamento: a alegria com sinos ao fundo que tira o ar por segundos; que, justamente pelo não-compromisso do amanhã, tem cara de futuro.

O arrebatamento é o melhor sentimento do mundo. É o que enraíza todas as relações de valor, toda emoção profunda.


A MTV Brasil aniversariou. Teve homenagenzinhas e tal, até eu me prestei a twittar ao canal o nome do primeiro clipe que eu vi através da emissora: Metallica -
The Unforgiven. Lembrei da circunstância: foi na casa do André Diniz, meu primeiro namorado, que tinha parabólica, no tempo em que ter parabólica, meldels, era muito phoda. Isso foi há - nossa! - 17 anos atrás. Sim, eu sou precoce - para namorar e para a música. :P

Claro que a MTV salvou minha vida. Era o paraíso televisivo para quem outrora esperava ansiosa que o Fantástico passasse videoclipes! E sim, apreciei a faceta popzinha da MTV: tive meu romance com a emissora, como a época (lembro bem que entre 1996 e 1997) em que eu acompanhava o Disk com a Sabrina Parlatore, os enlatados de verão e coisas do tipo que me vêm fácil à memória. Foi assim, por exemplo, que eu lembro com gosto que conheci clipes como Stranger in Moscow do Michael Jackson, Hero of the Day do Metallica, o Acústico dos Titãs e outras coisas que ainda hoje me agradam muitíssimo. Mas, por exemplo, sempre lamentei o fato de não termos aqui no Brasil uma MTV2, uma "filial" da emissora estadunidense em que só passavam clipes, ininterruptamente. Ou o fato de que a MTV Latina (a que tivemos acesso no Brasil durante bons anos) trazia as estreias muito antes de a MTV Brasil fazê-lo.

Faz algum tempo - uns 5, 6 anos, eu acho - que eu me desinteressei pela MTV, a ponto de pegar nojo. Começou quando atrações como Sandy & Junior começaram a ter espaço, quando programas como o Lado B foram parar nos buracos da madrugada, o Riff foi esmagado entre a programação, o Piores Clipes passou a ter 1h de duração e um monte de despropósitos em vez de música. Na mesma medida, a qualidade dos VJs caiu assustadoramente e quiz shows e outras atrações alheias a música tomaram conta do "syllabus" da emissora, que, para mim, virou simplesmente TV sem M.

Sem mencionar, é claro, que eu tenho saudade daquela roupagem meio "subversiva" que se encontrava por lá: cromaqui, vinhetas malucas/subliminares, e tudo que bastava para nos entreter eram videoclipes e um VJ de pé, com a perna apoiada num banquinho que nunca aparecia.


Acho que a coisa começou a se perder quando a MTV se tornou um canal aberto e se massificou: pronto, falei. Precisou se tornar interessante a muitos que antes sequer se preocupavam em se interessar por ela. Precisou ser para todo mundo, quando nada deveria ser. Por uma outra perspectiva, entendo perfeitamente que, com o advento de mídias do naipe do YouTube, a emissora tenha tido, de fato, que se reinventar no sentido de atender musicalmente a um público que não mais espera passivamente por música. Entretanto, não considero ter sido uma reinvenção feliz: tenho a MTV hoje como um canal voltado ao público adolescente, com foco em variedades que são variadas demais para o meu gosto.

(ou talvez seja simplesmente eu ficando velha com a síndrome de bommesmoeranomeutempo, mas acho menos provável, até porque nunca foi grandescoisa.)

A MTV me manteve, por um tempo, em contato constante com videoclipes e alimentou minha paixão por correr atrás deles, mas tenho uma certa mágoa da emissora: não foi a MTV que me entregou ao Pink Floyd, nem aos Rolling Stones, nem ao Queen, nem ao MJ, nem ao U2, nem ao Cazuza, nem à Janis Joplin. Não sei se foi uma questão de eu estar adiantada, ou eles atrasados, hahaha, mas hoje, creio que o canal me seja muito mais uma remitência à minha adolescência do que uma referência propriamente. De qualquer forma, assim como Herbert Richers contribuiu em algum aspecto para minha formação cinecultural, há alguma participação da MTV para com quem eu sou musicalmente. Então, ficam meus parabéns - assim, de longe.


Dia desses eu caí num canal em que estava começando Prime (Ben Younger, 2005). Eu ando meio de saco cheio de "enlatados", além de que costumo reservar esse tipo de filme para ver com as lulus, mas enfim, de bobeira no sofá, resolvi assistir.

E eu nunca me inspiro para escrever sobre filmes do gênero de
Prime. Por algum viés, o filme me tocou e daí a exceção.

Resumir filmes não está entre meus talentos, mas vamos lá: é a história de uma mulher de 37 anos, recém divorciada, que se envolve num romance com um rapaz 14 anos mais novo que acontece de ser o filho da sua terapeuta. A princípio, não ciente do laço de parentesco, a terapeuta fervorosamente encoraja o romance; mas, quando sabe se tratar de seu filho, surta em face de "a pimenta não estar nos olhos dos outros" e se vê inapta a seguir tratando de sua paciente, por conta de questões naturalmente pessoais e também éticas.

(eu avisei que eu não sei resumir.)

O filme tem toda uma cara de comédia romântica. E é. Mas o diretor/roteirista parece ter querido que o filme também fosse um drama. E conseguiu. Meryl Streep está fantástica, Uma Thurman convence muito bem. A comédia se dá de forma leve, mas natural, sem palhaçada; o drama se dá de forma tangível, externado na hora certa e comedido quando é devido. E, assim, o filme se desenrola entre momentos como o desconforto da terapeuta ao ouvir relatos sobre seu filho, a alegria de viver da paciente, a relação mãe-filho-família, o abismo da diferença de idade do casal e, claro, seu romance ao mesmo tempo complicado e irresistível que, apesar de contar com um ator fraco, transmitiu o que precisava.

No momento em que a terapeuta resolve revelar a verdade à paciente, eu achei que o roteiro fosse se perder. Não vou contar o que acontece - até porque não há nada de especial -, mas eu devo dizer: tive medo que o casal fosse viver feliz para sempre. Tudo bem que viver felizes para sempre é o final esperado numa comédia romântica mas, no caso de um roteirista que se dispôs a desvelar o lado "dramático" e - por que não dizer? - realista da coisa, não procederia.

Mas o final procedeu. Sem falas e com trilha sonora que comunica. Leve, acolhedor, convergente, de bom gosto. E eu me peguei pensando que o "tabu" da diferença de idade do casal era apenas uma desculpa para justificar o fato de eles não ficarem juntos. Poderia ser qualquer motivo, ou nenhum, ou todos. O fato é que o rumo que a trama tomou me tocou, e eu poderia me estender por parágrafos tentando explicar aqui por que eu acho que é importante saber se desfazer, e por que eu acho que uma relação não precisa durar para sempre para ser considerada bem-sucedida.

O casal não vive feliz para sempre. Ou melhor, vive. Com a marca e a alegria de um amor bonito, verdadeiro, acrescentador, eterno - dentro do seu devido tempo.


as horas no pulso direito

as alpargatas, mesmo na rua, e mesmo comigo
a milonga cantada "com sentimento"
as fotos dos cães no celular
a minha cintura se sentir no lugar devido
e o desinteresse mútuo
e esse jeito de avisar quando já está no prédio
sem dar a mínima para o meu sono
ou minha cara lavada
ou minha roupa
ou meus nãos
o medo
a diferença gigante

pouco tempo
a intimidade meio esquerda
e a fumaça do cigarro
e o abraço preciso
o não saber o que quer
o não saber o que quero
tu somes
eu sinto
tu voltas
eu minto
tu finges
eu fujo
depois escrevo
e apago o número
e sinto falta da mão no meu joelho
e do trejeito...
ahh, deus!, esse trejeito de jogar o cigarro para o canto da boca antes de acender...


sem o humor de Allen?
sem os noturnos de Chopin?

sem as artes de Walkíria?
sem os homens de Crowe?

sem a prosa de Azevedo?
sem a política de Raja?

sem as realidades de Kubrick?
sem os dons do Machadão?
sem os rituais de Helena?
sem as leis de Asimov?
sem a mão de Maninha?
sem os versos de Whitman?
sem a cozinha de Medina?
sem os vermelhos de Shyamalan?

Eu seria somente Lencia, sem Sacramento.


São 7h30min da manhã e essa chuva me faz lembrar daqueles dias assim em que eu pedia (implorava, a mulher era linha dura) à mãe para ficar em casa dormindo. Lembrei da infância e adolescência. Docinhos os dias em que minha forra estava nas mãos da helenamaria somente, e minha preocupação se limitava às pesquisas e redações.


Fiquei computando o tempo. Há 10 anos atrás ficar em casa dormindo já não era mais possível. Eu havia começado a trabalhar um ano antes. Não é à toa a má memória que tem me acometido nos últimos anos, nem as manias, nem as cafonices nem a crescente intolerância. Estou ficando velha, de fato.

No Ensino Médio, numa certa aula de Psicologia, fomos questionados sobre qual fase da vida seria a mais difícil na nossa opinião, ao que 95% da turma se dividiu entre "a adolescência, é claro" e "a velhice, é claro"; no primeiro caso, razões como ter de viver sob os olhos dos pais, ser incompreendido, ter de ser aprovado dominavam as justificativas; no segundo, incapacidade física e muitas vezes mental, ter de assistir à morte de várias pessoas amadas, etc. tornaria a terceira idade a fase mais difícil de se viver.

Lembro de oscilar entre as duas maiorias, mas fiquei elucubrando perante a rebatida da professora Simone: para ela, a fase adulta era a mais difícil, defendendo a premissa de que uma vez sendo um adulto, nada é justificável. E, curta e grossa, deixou seu argumento no ar, para que pensássemos. Pois uma simples frase tornou a Simone inesquecível para mim: a assertiva dela chicoteia meu lombo quase todos os dias.

Porque ela tem razão. É só o adulto que nunca tem desculpa. Não é jovem-não-ciente, não é velho-esclerosado. Se trabalha, "negligencia a família". Se não trabalha, "é vagabundo". Se casa, "é conformado", se não, "é um perdido". Adultos não têm caixa preferencial, não têm meia-entrada, não têm isenção de nada. Não é algo terrível, mas há que se estar preparado, pois assim o é e às vezes é injusto sim. Pode muitas vezes passar despercebido, mas tem dias em que essa realidade vai bater na sua cara.

Foi-se o tempo em que eu tinha melhor-amiga, carteirinha de piscina, caderno de Física. Hoje eu tenho condomínio pra pagar, um contador e um domínio na internet. Há 11 anos atrás eu desenhava, estava sempre apaixonada e não me preocupava com meu peso. Hoje eu sou política, empilho seriados e jornais e revistas para ler e tenho um chefe para aturar.

Mas há o que compense: tenho de engolir o choro na maioria das vezes, porém me afeto bem menos do que anos atrás pelas pequenisses alheias. Me interesso por bem menos pessoas do que me interessaria há alguns anos, mas meus relacionamentos são infinitamente mais bonitos e acrescentadores. O lado mais difícil de ser adulto é que uma escolha, um passo, uma decisão implicam em várias consequências que fatalmente terão de ser enfrentadas. O lado belo é justamente é o poder na sua mão. Ser adulto é poder escolher.


but don't forget to look around.

Pursue that which you trust,
do not belittle your love,
delight in human warmth,
hold hands,
savor the best in others,
enjoy the moment.

Sing to freedom,
but sing to bonding as well.
Be willing to learn,
be willing to change,
be willing to never be sure...
and welcome-kiss what is to come.

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