Enquanto tomava um banho despreocupado e ecologicamente incorreto, eu pensava que, há 1 ano, 6 meses e 14 dias, eu não tenho sido uma filha pródiga. Bati asas e voei alto, alto, raramente vindo à casa dos meus pais. Mas um infortúnio como a falta d'água no meu condomínio acabou me trazendo de novo ao aconchego daqui. E ainda por cima vou dormir na casa dos pais com barulhinho de chuva. :]
Estranho que estou escrevendo no meu quarto, que se transformou num escritório com monitor widescreen, um processador porradinha e uma internet quase nerd, artefatos há dois anos desconhecidos pelas mãos de meu pai e, principalmente, de minha mãe. Entretanto, atualmente tenho a impressão de que próxima vez vou me deparar com um dos dois navegando no Firefox. Já é engraçado ligar essa bodega e me deparar com três usuários: José Paulo (protegido por senha), Helena (protegido por senha) e Convidado. Vejam só, hoje sou convidada. :P
Identidade é uma coisa ambivalente. Tento lembrar dos meus anos de faculdade que passei nesta mesma peça e não consigo lembrar de muita coisa. Ou as madrugadas aprendendo HTML. Ou os 4 anos com o Duda. Ou os passos da vó. Pouca sinapse para 25 anos. A mãe diz que aqui é minha casa e eu penso "não, não é." Minha casa é o apartamento compacto e under construction cheio de TOC, com catálogos, decoração P&B e o desejo de um Lhasa Apso. Volto aqui e vejo que, apesar do quarto-que-virou-studio, muito se mantém o mesmo. Minha mãe me alerta: "tem bolacha salgada na 2ª gaveta e doce na 3ª", "fecha a janela da sala antes de deitar", "este ventilador tá trocado, ventilador é pra cima e exaustor é pra baixo". Eu ouço e fico rindo sozinha pensando "não diga! :P" e só concordo, mas já desprovida daquela irritação de quem morava aqui. Coisas que se vão nesse não-dia-a-dia de cada um ter o seu canto. Penso em como a gente se irrita por pouco e aceno com a cabeça como quem está de acordo com as "orientações", quando na verdade estou em meio a meus pensamentos, concordando com o que sempre ouvi de minha mãe, que a distância evidencia o respeito. Esta casa é um porto, para onde sei que posso correr na hora de apertos como esse, mas não é mais meu lar. Eis uma constatação boa e acrescentadora. Ter minha casa é sem dúvida o que de melhor me aconteceu até hoje. É o que fortalece minhas raízes no coletivo de minha família mas também minha identidade como indivíduo, e enriquece minhas relações com quem eu mais amo - meus pais.
It’s a funny thing about comin’ home. Looks the same, smells the same, feels the same.
You’ll realize what’s changed is you.
(de The Curious Case of Benjamin Button, dirigido por David Fincher, 2008 e baseado na short story de F. Scott Fitzgerald, 1921).

