redação civil


Fui deitar. Mas deitei e fiquei pensando numa música do Richard Marx. O caminho mais fácil era dar um pulinho da cama até o office, plugar o iPod e baixar.


Enquanto isso, apreciava minha biblioteca quando simplesmente peguei um livro deixando capa, título e autor para a sorte. Era Poesia numa hora dessas?! de Luís Fernando Veríssimo. Mais apropriado, impossível.

Abri, sem planejar, na página 23:

O corpo e a mente
têm biografias separadas,
cada um sua memória própria,
seu próprio jogo de charadas.
Meu corpo tem lembranças
- cheiros, tiques, andanças -
que a mente não registrou
e o corpo não tem as marcas
De metade do que a mente passou.
(Pior que uma mente insana
num corpo sem muito assunto
é um corpo que já foi ao Nirvana
sem que a mente tenha ido junto.)
Cada um tem o passado
do qual o outro não tem pista
(como um bilhete amassado)
e nem o Mahabharata
explica uma mente anarquista
num corpo socialdemocrata.
Compartilham bioplasmas
e o gosto por certas atrizes,
mas não têm os mesmos fantasmas
nem as mesmas cicatrizes.
Das duas, uma, gente:
ou toda mente é de outro corpo;
- ou todo corpo mente.

Gostei da brincadeira e, de novo, "sorteei":
Meia-noite e um Quarto, Martha Medeiros (sorte essa ligeiramente bairrista, não?).

Página 46.


se eu quisesse
sairia da cidade
moraria onde pudesse
deixaria saudade
partiria quando desse
não interessa a idade

andaria a esmo
descobriria ruas
iria sozinha
pediria abrigo
trabalharia à noite
viveria de dia
ouviria música
saberia línguas
pediria arrego
trocaria o nome
mandaria cartas
choraria à vezes
não envelheceria
perderia o rumo
cometeria erros
distríbuira beijos
arruinaria casamentos
visitaria museus
deixaria o cabelo crescer
sorriria diferente
montaria uma casa
viajaria em cargueiro

faria tudo isso
se eu quisesse mesmo

Agora é cama ouvindo Richard Marx. Dar mais comida pras sinapses.

1 Comment:

  1. Anonymous said...
    sabe de uma coisa? gostei do seu blog!vc é estilosa!

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