redação civil


São 7h30min da manhã e essa chuva me faz lembrar daqueles dias assim em que eu pedia (implorava, a mulher era linha dura) à mãe para ficar em casa dormindo. Lembrei da infância e adolescência. Docinhos os dias em que minha forra estava nas mãos da helenamaria somente, e minha preocupação se limitava às pesquisas e redações.


Fiquei computando o tempo. Há 10 anos atrás ficar em casa dormindo já não era mais possível. Eu havia começado a trabalhar um ano antes. Não é à toa a má memória que tem me acometido nos últimos anos, nem as manias, nem as cafonices nem a crescente intolerância. Estou ficando velha, de fato.

No Ensino Médio, numa certa aula de Psicologia, fomos questionados sobre qual fase da vida seria a mais difícil na nossa opinião, ao que 95% da turma se dividiu entre "a adolescência, é claro" e "a velhice, é claro"; no primeiro caso, razões como ter de viver sob os olhos dos pais, ser incompreendido, ter de ser aprovado dominavam as justificativas; no segundo, incapacidade física e muitas vezes mental, ter de assistir à morte de várias pessoas amadas, etc. tornaria a terceira idade a fase mais difícil de se viver.

Lembro de oscilar entre as duas maiorias, mas fiquei elucubrando perante a rebatida da professora Simone: para ela, a fase adulta era a mais difícil, defendendo a premissa de que uma vez sendo um adulto, nada é justificável. E, curta e grossa, deixou seu argumento no ar, para que pensássemos. Pois uma simples frase tornou a Simone inesquecível para mim: a assertiva dela chicoteia meu lombo quase todos os dias.

Porque ela tem razão. É só o adulto que nunca tem desculpa. Não é jovem-não-ciente, não é velho-esclerosado. Se trabalha, "negligencia a família". Se não trabalha, "é vagabundo". Se casa, "é conformado", se não, "é um perdido". Adultos não têm caixa preferencial, não têm meia-entrada, não têm isenção de nada. Não é algo terrível, mas há que se estar preparado, pois assim o é e às vezes é injusto sim. Pode muitas vezes passar despercebido, mas tem dias em que essa realidade vai bater na sua cara.

Foi-se o tempo em que eu tinha melhor-amiga, carteirinha de piscina, caderno de Física. Hoje eu tenho condomínio pra pagar, um contador e um domínio na internet. Há 11 anos atrás eu desenhava, estava sempre apaixonada e não me preocupava com meu peso. Hoje eu sou política, empilho seriados e jornais e revistas para ler e tenho um chefe para aturar.

Mas há o que compense: tenho de engolir o choro na maioria das vezes, porém me afeto bem menos do que anos atrás pelas pequenisses alheias. Me interesso por bem menos pessoas do que me interessaria há alguns anos, mas meus relacionamentos são infinitamente mais bonitos e acrescentadores. O lado mais difícil de ser adulto é que uma escolha, um passo, uma decisão implicam em várias consequências que fatalmente terão de ser enfrentadas. O lado belo é justamente é o poder na sua mão. Ser adulto é poder escolher.

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